O marketing político mal tratado, Revista Entre Lagos, Edição 102, Ano XII, Setembro de 2014

Como nesta eleição não tive cliente presidencial, pude acompanhar o trabalho das equipes de marketing político e comentar diariamente os resultados no meu facebook, como interessado nas questões técnicas do tema.
E o que tenho visto me deixa muito preocupado, pois as três principais campanhas falharam na aplicação dos primados da atividade, contribuindo para aumentar uma suspeição indevida sobre ela. Até uma parte expressiva da grande imprensa ainda não entendeu que a função do marketing político é fazer corretamente a comunicação de uma campanha/candidato, ou do trabalho de um organismo político. Assim como o marketing geral divulga as atividades do seu cliente, assim como a propaganda enaltece as qualidades de um produto.
Aqui, como em todas as profissões, existem bons e maus profissionais. Aqui, como em todas as situações, existem resultados positivos, neutros ou negativos. O que não está correto é generalizar a atividade global, tendo em vista uma situação particular.
No caso específico da atual campanha eleitoral, o que tenho constatado é uma série de imprecisões e até um apanhado de deturpações.
Marina Silva, catapultada à condição de candidata na tragédia que abateu Eduardo Campos, disparou para a liderança das pesquisas levada por uma grande força emocional. Mas sua campanha não percebeu que emoção sozinha dificilmente elege alguém: o voto precisa sempre de uma motivação racional. Ela ficou mostrando discursinho aqui e acolá, sem ganhar a consistência necessária para se manter na disputa. Era uma colcha de retalhos mal costurada, que acabou enredada nas suas próprias contradições. Sem nenhum plano básico, nenhuma estratégia de marketing político.
Parece que nos exageros puristas dela e da turma que a cerca, essa expressão pesa como um incêndio na floresta. Bobagem! Qualquer candidatura tem que se comunicar com os eleitores, mostrando a que veio. E quem faz isso é o marketing político. E ponto.
Aécio começou a naufragar porque sua campanha não entendeu situações básicas para ser eleitoralmente aceito. A principal delas era o fato de ele ser desconhecido pela maioria da população. Pesquisa DataFolha de 02/03 de abril passado, feita em todo o Brasil, mostrava que o candidato tinha 17% no item “conhece muito bem” e 23% no “conhece um pouco”- índices muito baixos para quem almeja uma votação nacional.
Ora, parece elementar que um candidato nessas condições deve, em primeiro lugar, se apresentar, mostrar quem é e o que fez, que passado oferece como garantia de que será um bom presidente. Pasmem: a primeira biografia dele apareceu no quinto programa de uma série de 21, no primeiro turno. Com uma campanha de altos e baixos, sem uma estratégia bem definida, acabou crescendo mais pelos desacertos de Marina, do que pelos acertos próprios.
E agora, no segundo turno, insiste em mostrar que terminou seu segundo mandato em Minas com 92% de aprovação. A campanha dilmista coloca esse resultado em dúvida, baseada numa afirmação irrefutável: ele tomou uma surra dupla no seu estado: não elegeu o governador e ainda perdeu para a presidente – com “e” como a boa gramática exige.
A campanha de Dilma apresentava uma estratégia bem definida: garantir a intenção de voto que, na maior parte do tempo lhe dava liderança folgada. Mas aí rumou para o condenável exagero de amplificar números e situações, parecendo que este país tornou-se uma maravilha feita por ela, figura bíblica que trabalhou seis dias e descansou no sétimo.
Suas promessas, nos dois turnos, beiram a insensatez, pois até no Judiciário ela vai dar um jeito para acabar com a corrupção – coisa nojenta que ela desconhece e até tem arrepios na espinha, só de pensar.
Fazem isso tudo porque não têm escrúpulos de enganar uma boa parte da população que, infelizmente, não consegue discernir mentiras de verdades e vive agarrada nas tetas das bolsas do governo.
O erro não é do marketing político. É de quem o pratica irreverentemente.
O fato é que um deles será eleito(a) presidente. Do ponto de vista do bom Marketing Político não será o melhor. Apenas o menos pior.

Por | 2017-10-26T21:56:57+00:00 25 setembro, 2014|Artigos|Comentários desativados em O marketing político mal tratado, Revista Entre Lagos, Edição 102, Ano XII, Setembro de 2014